Transtorno de Ansiedade: Como Tudo Começou para Mim
Em 2017 eu tinha um trabalho como professora de um curso técnico. A quantidade de aulas que eu dava dependia do cronograma do próprio curso, um local com um regime de trabalho de exploração absurdo. Sem assinar a carteira de trabalho ou garantir qualquer direito eles me convidavam para ministrar aulas que as vezes eram só pela manhã, as vezes pela tarde, ou pela noite. E muitas vezes eu tinha dois ou até os três horários preenchidos com diferentes disciplinas: processos gerenciais, aspectos psicossomáticos no ambiente de trabalho, meio ambiente, português. Lembro que o valor que eles pagavam era de 13,00 reais a hora/aula. Mas no final do mês para receber o meu pagamento eu mesma tinha que arcar com o pagamento da nota fiscal referente ao meu trabalho, os custos com o transporte para emitir essa nota fiscal eram meus e os custos do transporte para ir até o trabalho também eram meus. Então, vocês entendem, como eu disse: EXPLORAÇÃO do trabalho.
Nesse curso uma coisa parecia aliviar toda essa arbitrariedade do regime de trabalho, a pessoa que me convocou as primeiras vezes era uma mulher muito legal e que me dava uma liberdade enorme a cerca da dinâmica que eu utilizava nas aulas, uma coordenadora do curso, e provavelmente muito explorada também pois depois de um determinado tempo ela pediu demissão e no lugar dela um professor que eu imaginava ser alguém muito humano assumiu essa coordenação e se revelou alguém que só queria segurar aquela vaga e ganhar um pouco melhor ao custo de esquecer que já esteve no lugar do professor e para mostrar serviço para os donos ele passou a pressionar muito os professores que trabalhavam muito e ganhavam pouco, professores que pagavam para trabalhar com exigências que cancelavam a criatividade e a dinâmica de cada professor em suas aulas.
Ele tentava através de reuniões para “acertar algumas coisas” engessar como cada professor aplicaria o conteúdo programático e transformar em exigência irrevogável que no turno da noite as aulas fossem encerradas as 22:00 horas em ponto. Com a primeira coordenadora isso era diferente. Ela entendia a situação arriscada de ficar no ponto de ônibus e dentro do ônibus nesses horários. Os próprios alunos não gostavam disso e sempre queriam sair 20 ou 30 minutos antes para garantir pegar um ônibus em um determinado horário, pois o próximo ônibus poderia demorar até 1 hora para passar.
Eu, professora, era uma dessas pessoas enfrentando os problemas do transporte público em Salvador. Meu ônibus passava de hora em hora e eu cheguei a ficar sozinha no ponto de ônibus em uma rua que a medida que os alunos pegavam seus ônibus tudo ficava completamente deserto. Quem conhece a cidade pode imaginar o risco de ser assaltado em uma situação assim. Dentro do ônibus o risco do assalto também estava como uma sombra constante e por isso eu tinha na mochila um celular que funcionava e outro quebrado porque eu não recebia mesmo o suficiente para comprar outro celular caso o meu fosse levado em um assalto. Eu até conseguiria isso com um cartão de crédito, dividindo em 10 vezes e totalmente insegura se teria trabalho todos os meses para pagar as prestações. Era uma TENSÃO TERRÍVEL.
No meu corpo eu inicialmente comecei a notar zumbidos no ouvido, necessidade de ir ao banheiro para urinar muitas vezes, um dia ainda com a coordenadora que deixava toda situação de certa maneira tolerável, eu acordei com uma dor de cabeça tão forte que vomitei, a primeira vez que tinha experimentado essa dor de cabeça foi quando a minha mãe descobriu que o meu pai a estava traindo (essa história fica para outro dia). Passada algumas semanas já durante esse tempo escutando todo o palavrório de capitão do mato do coordenador antes professor eu acordei muito enjoada, uma sensação tão terrível no estômago que eu enfiava o dedo na minha garganta compulsivamente para vomitar.
Um desespero total! As pressas quis ir ao médico de tão terrivelmente mal como eu me sentia. Foram cerca de 10 dias acordando assim! Na emergência eles me medicavam com remédios para o estômago e para evitar enjoos. Cheguei a ir duas vezes por dia até uma emergência. Eu pesquisava muito na internet se poderia estar com alguma doença grave e tinha esse pensamento de maneira constante. A minha mãe sempre falava que não era certo deixar o cachorro dormir na cama pois eu poderia pegar uma bactéria no cérebro. Eu e a minha ex-namorada tínhamos um lindo yorkshire que na verdade era dela, quando eu os conheci ele já tinha 10 anos e sim dormia na cama com a gente e isso era muito confortável. Mas de repente lá estava eu com medo de estar com uma bactéria no meu cérebro, mesmo assim nunca proibi ele de subir na cama quando ele quisesse.
Fui em médicos especializados, gastroenterologista, endocrinologista, fiz muitos exames de sangue, urina, fezes e não existia nada que justificasse esses enjoos, mas lembro que por ter uma pequena gastrite o gastroenterologista receitou remédios. Comecei a acordar durante a madrugada e minhas pernas tremiam involuntariamente, e assim a minha ex-namorada começou a me dá um remédio para dormir isso garantia que eu tivesse algum descanso. Em mais um dia me sentindo mal o meu pai me levou até a emergência e lá conversando com a médica residente, uma jovem atenta e certeira, após eu falar que estava com medo de ter uma bactéria no cérebro ela disse que não existia nada nos meus exames que sugerisse algo assim e então ela indicou que eu buscasse a psiquiatria, foi a primeira médica de todos que passei a fazer essa observação e entregar a solicitação para eu apresentar ao plano de saúde.
Meu pai me levou para visitar um dos meus tios, irmão dele, um cara que sempre me apoiou muito principalmente quando eu comecei a entender que meus sentimentos e meu corpo sentiam o afeto, a paixão e o tesão por mulheres. Nesse dia, ele me deu um dos remédios que ele mesmo toma e me disse que conhecia esses monstros. Me senti bem com o remédio que ele me deu e fiquei tomando pela manhã até o dia que fui na primeira consulta com a psiquiatra. Lembro dela dizendo: Transtorno de Ansiedade Psicossomático.
Ela receitou dois remédios que prefiro não revelar os nomes aqui pois não quero sugerir coisas que as pessoas se achem a vontade para fazer sem orientação médica, ela também fez uma solicitação de psicoterapia. A adaptação com um dos remédios, um Inibidor Seletivo da Recaptação da Serotonina (ISRS) não foi nada fácil, a dosagem dele teve até que ser aumentada. Em um retorno de avaliação com a psiquiatra eu revelei para ela que apesar de estar melhor eu acordava durante a madrugada assustada e preocupada com a saúde do cachorro, olhava para ele, verificava se estava tudo bem e com essa informação ela receitou um outro remédio, antagonista serotonina-dopamina para tomar na hora de dormir. Esse remédio ajudou muito, foi quando finalmente comecei a despertar sem ansiedades pela manhã.
Bem pessoal, isso é apenas como tudo começou e tem mais história de como venho vivendo com esse Transtorno de Ansiedade Psicossomático ao longo desses anos. Em breve escreverei mais.
Não tenham preconceito de ir até um psiquiatra pois o sofrimento da ansiedade deve ser controlado para não chegar em patamares mais graves.
Se cuidem! Eu sei é um esforço, mas é possível e gratificante quando percebemos que podemos nos sentir bem com esses cuidados. Eu tenho me esforçado e me cuidado também.
I.S.
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